Não é à toa que Copenhague se considera a “melhor cidade do mundo para ciclistas”. Todos os dias, 55% de seus 530 mil habitantes vão e voltam do trabalho ou da escola de bicicleta. A capital dinamarquesa tem mais de 350 quilômetros de faixas segregadas e ciclovias, onde, por dia, ciclistas percorrem cerca de 1,3 milhão de km de forma ecologicamente correta.

 

“A estrutura cicloviária começou a ser construída há mais de cem anos”, revela o planejador de tráfego da prefeitura Niels Jensen. A bicicleta, mais do que veículo, virou referência cultural e até marca publicitária. Um suvenir comum da cidade é a camiseta “I Bike CPH”, inspirada no slogan I Love New York, mas com uma bicicleta vermelha no lugar do coração.

 

O modelo de ciclovias da capital dinamarquesa virou referência a ponto de dar origem ao termo “copenhagenize” em inglês (ou “copenhaguenize-se”). Além disso, foi copiado por cidades como Melbourne, Austrália.

 

Ao contrário do que se imagina, a última pesquisa da prefeitura sobre ao uso de bicicletas, a Bicycle Account, de 2008, mostrou que só 1% dos ciclistas recorrem a elas por questões ambientais. Mais da metade dos entrevistados considera as bicicletas um meio de transporte mais rápido e prático que os automóveis. Isso está ligado também às condições geográficas favoráveis – Copenhague é plana – e ao planejamento urbano, que já levava em conta a bicicleta muito antes de precisar pensar nos automóveis.

 

Jensen explica que Copenhague nunca “foi muito de carros”. Eles só chegaram definitivamente por lá depois da Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito, além de estar ocupada pelos nazistas, que restringiam todas as importações, a Dinamarca ainda não tinha indústria automobilística.

 

Como ocorreu em outros centros urbanos, o carro teve seu boom em Copenhague, principalmente nos anos 60 e 70. Em 1972, o uso da bicicleta alcançou o índice mais baixo da história – no horário de pico da manhã havia 5 mil bikes nas ruas, ante 20 mil automóveis. Mas o incentivo público ao ciclismo urbano falou mais alto. Hoje, no pico da manhã, são 20 mil bicicletas para 17 mil carros.

 

Apesar de serem minoria, os ciclistas verdes “influenciam” as políticas da prefeitura, afirma Jensen. O investimento na malha cicloviária faz parte da meta da administração de reduzir as emissões locais de carbono em 20% até 2015.

 

Esse investimento ganhou força a partir de 1995, quando foi feita a primeira Bicycle Account. A prefeitura usou-a como base para iniciativas como o Green Cycle Route Plan, projeto urbanístico que criou 40 km de vias exclusivas ladeadas por vegetação e distantes da malha usada por automóveis.

 

Também em 1995, a prefeitura começou a alugar bicicletas públicas. Hoje, com 20 coroas dinamarquesas aluga-se uma. O dinheiro serve apenas como caução – é devolvido ao cidadão quando a bike retorna.

A principal dificuldade dos ciclistas dinamarqueses é estacionar a bike. Na última Bycicle Account, a nota dada pela população ao item foi 3, numa escala de zero a 10. “Acontece o mesmo problema com os carros: não há espaço suficiente”, admite Jensen.