“Quem anda de bicicleta não presta, hoje sabemos disso, são pessoas desqualificadas, então vamos ficar sujeitos a esses riscos (de assaltos) aqui?”, disparou o meu vizinho de Jardim Paulista o aposentado de 74 anos Francisco Augusto da Costa Porto, nessa matéria para o Estadão sobre a ciclovia na rua Honduras, local de sua residência.

Essa frase é mais uma prova que o Brasil vive sob um regime de preconceito social e nós não o assumimos por conveniência.

E maniqueístas que somos, em vez de enfrentarmos os fatos de frente, preferimos acreditar que qualquer análise é uma invenção do partido X ou Y. Culpamos o outro em vez de elaborarmos políticas eficientes de soluções, como a imediata inclusão social. No Brasil, a solução à mão é sempre crucificar o analista e nunca atacar o problema.

O brasileiro é um vira-lata alegre boa gente, mas sem vergonha e imaturo, portanto acha que o seu problema está sempre nos outros, nunca nele. Desde que o Homem é Homem, a primeira “regra” para a “sua segurança” é impedir a circulação dos indesejados na “sua área”. Isso evoluiu rápido para a máxima, “para estarmos em paz, você fica aí no seu pedaço e eu aqui no meu”. 

Assim nasceu a segregação como uma pretensa forma de “segurança e paz”. Esse raciocínio é de fato arcaico e deu lastro para os fundamentos de filosofias como a nazista, esta por sua vez gerou o “apartheid” da África do Sul.

Na evolução da sociedade dos homens, nasceram as cidades, as leis e daí o Direito. E as leis são vivas, evoluem. Quanto mais democrática é uma sociedade, mais simples e justas são as suas leis estas por sua vez, são cumpridas. 

Segurança é, portanto, uma conquista das sociedades que buscam cumprir suas leis e as mantém vivas, de forma democrática. As sociedades mais evoluídas já chegaram ao estágio onde segurança é sinônimo de equidade e igualdade, não de segregação.

Não é o caso do Brasil. Em uma sociedade onde impera a impunidade, a segregação ainda é confundida como medida de “segurança” e o medo é a argamassa dessas convicções. 

Na defesa do pretenso direito sobre a privatização do espaço público, no caso estacionar um carro na rua, ou impedir a passagem de ciclistas por ela, direitos estes inexistentes em nossa Constituição; fica evidente uma sobrecarga de preconceitos, mas isso tudo é de se esperar de nossa sociedade paulistana.

No entanto, me pergunto como pode um jornal com a responsabilidade de O Estado de S.Paulo dar eco a tal disparates da forma como deu?

Pior do que ser preconceituoso é fazer uso deste para promover o ódio e, no caso, acaba sendo a consequência da veiculação da matéria como está.É bem provável que, mesmo não querendo ciclovias na frente de suas casas, a esmagadora maioria dos cidadãos dos Jardins discorda da frase: “quem anda de bicicleta não presta etc e tal”.

A ética, embora não escrita, serve para orientar o que é de “bom tom”, os costumes, no caso o Estadão passou ao largo da ética.

Mais uma vez a bicicleta aparece como importante ferramenta para que possamos discutir nossos problemas e a cada centímetro de ciclovias, uma pérola é disparada pela tal da grande mídia!