No primeiro dia da Copa, foram enviados 80 bilhões de mensagens com spam; como chegamos a este ponto?
TECNOLOGIAS VÊM e vão e, tratando-se de TICs (tecnologias de informação e comunicação), o vaivém é de alta frequência. Num dia destes pensei em mandar um fax só por pirraça e… cadê a maquininha? E alguém do outro lado com uma delas, para receber? Em outro dia, encontrei um amigo e lembramos da época -distante, década de 80- em que extraíamos algum “algo mais” das máquinas de telex da Embratel. Você diria “telex”? Pois é, isso acabou no fim do século passado, mas, dos anos 30 até a maturidade da internet, telex foi o principal meio de comunicação escrita, em tempo real, entre negócios.

Toda boa empresa tinha um, capaz de transmitir assombrosas 60 palavras por minuto. Já pensou? De sua sala em Arcoverde, PE, direto para um escritório em Pepeekeo (Havaí, EUA), centenas de vezes mais rápido do que uma carta?
Pois é: telex era bem mais rápido do que cartas ou telegramas. Mas muito mais lento do que correio eletrônico -que traduzo como “emeio”- mesmo no começo da internet. Sem falar que telex era precificado por tempo ou palavras e, a partir das conexões de banda larga, ou não discada, emeio é grátis.

O preço está embutido no custo mensal da conexão e por isso ninguém pensa no tamanho da mensagem antes de clicar em “enviar”, muito menos para quantas pessoas está enviando alguns megabytes, talvez dezenas ou centenas de páginas, na suposição de que o destinatário vá pelo menos abrir o anexo.

Se cada um de nós faz isso com colegas e amigos, imagine o que faz quem nem nos conhece, como os spammers, que vivem de e para enviar emeio para todos, sobre tudo, desde as mais ingênuas composições literárias até as mais perigosas ofertas, aquelas do tipo clique-aqui-para-me-dar-os-dados-de-sua-conta-bancária.

Interessante é que ainda há quem dê; deve ser algum tipo de seleção não natural substituindo Darwin em um mundo quase todo artificial. Resultado? Mais de 90% de todo o emeio que recebo é spam, mensagens não solicitadas de todos os tipos, vindas de gente que nunca vi ou verei.
No 11 de junho, primeiro dia da Copa, foram (segundo a Cisco Systems) 80 bilhões de spams, dos quais quase 3 bilhões diretamente relacionados à Copa. O envio e tratamento de spam é um dos negócios mais improdutivos da internet e quase impossível de ser exterminado por completo. Você, que acha emeio produtivo, diria: como chegamos a este ponto?

A resposta é que partimos deste ponto; a rede mundial que permite emeios saírem de um ponto e chegarem a outro também permite, na maioria dos casos, a atividade dos spammers, na escala que sabemos e a custo de envio bem perto de zero, apesar de todos os esforços dos órgãos mundiais e nacionais de coordenação da rede.

Mas há esperança, e vem dos mais jovens: segundo o Facebook, rede social de meio bilhão de pessoas, apenas 11% dos adolescentes mandam pelo menos um emeio por dia. Mas eles se comunicam como?

Por redes sociais como Facebook e Twitter, comunicadores pessoais como GTalk e Skype e, claro, SMS. Nos EUA metade dos adolescentes manda 50 ou mais mensagens de texto por dia. Você diria: mas SMS é quase um emeio! Não, não é: emeio custa nada e SMS, dinheiro.
Pode ser pouco (na China, no Brasil é muito), mas tem preço. Não há spam no SMS, em redes sociais ou em comunicadores pessoais. Os três, em celulares e associados a localização, direção e imagens, por exemplo, estão mudando o mundo, porque são TICs comigo e com você, não sobre mesas em casa ou no trabalho.

Para quem saiu da carta para telex e fax, emeio parece uma solução definitiva. Para quem está na escola e não tem compromisso com o passado, emeio já era. Foi substituído por algo mais simples, natural e eficaz: conversações de baixo ruído em redes sociais. Taí algo com que as empresas deveriam se preocupar: como trazer essas redes sociais para dentro do ambiente de negócios?

SILVIO MEIRA, 55, fundador do www.portodigital.org e cientista-chefe do www.cesar.org.br